Filme novo de José Padilha critica antropólogos mas é plagio de documentário

25/04/2010

O novo documentário de José Padilha, “Segredos da tribo”, que abriu a 15˚ edição do Festival de Documentários “É Tudo verdade”, apesar de todo bafáfá da mídia, não traz nenhum ineditismo, a não ser para aqueles que ficaram ausentes todos esses anos da polêmica do sangue Yanomami retirado na década de 80.

O filme é plagio do documentário “Napëpë”, de 2004, da antropóloga e jornalista Nadja Marin. Como infelizmente no Brasil ninguém pode com as organizações Globo, ainda mais quando se têm também o patrocínio da gigante inglesa BBC, o documentário independente “Napëpë” não conseguiu atingir a mesma divulgação de Padilha. Mesmo com uma qualidade infinitamente superior e isento de sensacionalismos, e apesar de ter chegado a vencer o 8th Gottingen International Ethographic Film Festival e de ter passado em diversos festivais no Brasil, tendo sido também citado na revista Época em 2004 em reportagem sobre o assunto, o documentário não conseguiu fazer tanto barulho quanto parece estar fazendo “Segredos da tribo”.

O plagio é muito fácil de ser comprovado, bastando apenas uma pesquisa básica no google, ou visualizando o documentário de 2004 na íntegra no site do “you tube”. José Padilha sabe muito bem da existência do documentário anterior, apesar de não falar no assunto e não dar o crédito, tanto que chegou a gravar o filme “Napëpë” em um evento na Universidade de São Paulo na ocasião de uma palestra sobre o tema com um dos antropólogos entrevistados na sua versão.

Talvez o único mérito do filme de Padilha, do qual ele pode se gabar foi ter conseguido entrevistar a principal personagem da polêmica, o antropólogo Napoleon Chagnon. No entanto, o filme tem quatro cenas exatamente iguais às do documentário “Napëpë”, sendo a mais chamativa, a bomba de Hiroshima que explode quando um antropólogo entrevistado fala do tema dos objetivos da expedição de Chagnon, que visava comparar o sangue dos Yanomami – teoricamente a população mais pura do mundo – com o sangue dos sobreviventes da bomba atômica lançada pelos americanos.

O plagio apesar de ser o elemento mais preocupante do filme, uma vez que Padilha está ganhando orlas de dinheiros em festivais e clamando para si o ineditismo da história, não é o único problema. O documentário “Segredos da tribo” apela para questões morais do comportamento dos antropólogos e se baseia em estórias sensacionalistas as quais tenta provar através de uma sequência de depoimentos enviesada, difícil de convencer uma platéia mais atenta e informada.

Por fim, a versão plagiada de Padilha deixa de lado a opinião dos Yanomami brasileiros e se esquiva da questão realmente importante e problemática, a repatriação do sangue Yanomami retirado pela expedição de Chagnon e a atual comercialização desse sangue por instituições americanas sem o consentimento dos índios.

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